Mensageira


Palavras podem criar vida ou destruir vida. Uma palavra apenas sem pretensão que seja, quando dita e ouvida, materializa risos ou dores, força ou fragilização. Quanto poder tem uma palavra dita! Quem lhe dá tal poder? Formada a mensagem sem pensar ou com a intenção premeditada tem efeitos e misteriosamente é criadora. Mas o que de fato e concretamente ela cria?

Como se dá essa criação? Por fofoca, só uma observação, uma brincadeira, “zoação”, comentário, narração, elogio, reconhecimento, declaração, sincericídio... Muitos motivos fazem sentido, cumprem necessidades antigas ou assumem o arroubo de breves impulsos, irresponsáveis, românticos, infantis ou agressivos.

Fica o dito pelo não dito. Perdeu a vez para outra palavra, a que se queria dar ou a que veio a ferir. Existe um espaço vazio para as palavras e elas ocupam um lugar nas vidas dos ouvintes e dos falantes. Uma afirmação vira verdade, a palavra formou uma sentença que se torna real! Mas, quem foi que acreditou nela? Quem disse e quem ouviu a palavra são cúmplices inocentes ou conscientes da criação. Então, o ouvinte é cooperador desde o início, pois até a palavra foi para ele por algum motivo, e ganha força e matéria na sua própria crença. É bom repetir, mas só se materializa se o ouvinte acreditar! Não é mágica então, nem benção, nem maldição, a palavra bendita ou maldita cumpriu apenas sua tarefa de mensageira. É despachada e entregue, recebida e aí pode ser usada, sentida e guardada, ou pode ser rasgada mesmo sem ser aceita ou até sem ser compreendida. Depende da palavra, do dizente, do ouvinte.

Elas se reproduzem e perpetuam seus efeitos. Uma declaração de amor pode construir um romance, um namoro, casamento, família. Uma desvalorização pode construir uma baixa estima, uma tristeza, depressão, dependência, suicídio. Mas, se for rasgada ou não for acreditada perderá efeito no meio do caminho. Quanto poder tem o ouvinte! Aceitar ou não, eis a questão?

Acreditar no que se fala importa, mas não é tudo, tem que se contar com o desejo, o sentimento, a carência que quem ouve tem em si mesmo como lugar que acolhe a palavra, compreende a reivindicação, aceita a bendita ou aceita a maldita, pode também rejeitar. Um arquivo de palavras recebidas e guardadas precisa ser organizado numa vida. A pasta de mensagens mortas pode de repente ir para a lixeira ou ganhar o status de historia de vida. Podem ser pedras que furaram o pé ou brilhantes que reluzem nas orelhas, mas elas se guardadas não se apagam, fazem parte de nós. Matam ou fazem viver!

Claudia Carvalho Amaral
Psicóloga Clínica
21 99391-8093