Esse vazio inesgotável e cheio de tudo!



Preenchendo...

Que tamanho é necessário para caber no lugar de tudo o que falta, do buraco, do vazio, da falta, da carência, de dar conta de todos os males, de obter todos os recursos, de atender a todos com satisfação? Por muita responsabilidade e cansaço, tem-se a sensação de carregar o mundo nas costas. O corpo por vezes reclama, clama literalmente pelos ombros ou quem sabe pelo movimento do intestino. Essa pode ser a linguagem que as partes, decepadas de nossa indissolúvel integridade, utilizam para sinalizar o peso que não precisamos suportar!

Conta-se que Atlas, com outros titãs capacitados como forças do caos e da desordem, intentaram ter o poder supremo, assim, atacaram o Olimpo e lutaram contra Zeus. Este venceu e os castigou, fazendo-os escravos da matéria e dos sentidos, inimigos da espiritualização e da harmonia, foram lançados na região mais profunda do hades, para que de lá nunca fugissem. Especialmente para Atlas a pena foi sustentar, nos ombros e para sempre, o céu. 
 – Todos dependem de mim! Diz agora aquele que carrega o mundo e de uma certa forma tem um poder supremo. 

Como também se justifica aquele que concentra esforços para resolver, e dar conta das necessidades de todos a sua volta e quem mais chegar em sua órbita: o solicito. A sua própria necessidade se torna propriamente as muitas solicitações do mundo. Competência ou culpa, controle ou perdição, nomes que podem qualificar o acontecido, tentativas de entender como foi construída essa atitude que parece carregar o mundo. 

De outro modo, para o compulsivo por comida, drogas, compras, sexo ou o que for, há a dor o desespero em estar perdido e vencido pela coisa eleita para saciar numa busca continua e ilusória de satisfação. Como uma miragem que no limite de ser alcançada sempre escapa mais uns metros a frente. Dependência, fragilidade, exclusão, carência podem indicar necessidade de pertencer, um medo profundo de solidão. 

 Tantos outros olhares podemos dar ao solicito como ao compulsivo, o que doa e ao que quer sempre uma doação, numa tentativa mesma de alcançar algo fixo estático que esteja sempre lá para uma explicação que sacia (será?). Até aí se quer capturar, preencher, saciar, atender!!

É o próprio espanto do olhar que se depara com esses movimentos de repetição. O que desejam aquele que crê suprir e o que carece suprir-se? Podem ser eles o mesmo personagem de um mundo confuso? Se perderam nas suas sedes. A direção que cada um toma não importa, mas parece que a velocidade da corrida e a repetição do circuito fazem de ambos – perdidos. 

Na tradição Cristã, a aproximação da peça mitológica de Atlas encontra a descrita formação de céu e inferno, no qual o anjo ambicioso e presunçoso fica cativo, nesse mesmo modelo podemos também compreender em nossas realidades o cenário da vida que decidimos viver e o que nos aprisiona nas masmorras do próprio de um desejo inesgotável. Atlas é frágil diante de Zeus e carrega o peso daquilo mesmo que decidiu ser a sua necessidade: o poder supremo, ter o mundo (só que nas costas).

Se convertermos poder em força, e derivarmos para fortalecimento, e este fizer, para a mais significativa e delicada compreensão humana, sentido numa busca particular, podemos retornar a Atlas, como a um mortal em sua perdição, para lhe dizer – talvez não esteja no Olimpo o que procuras! 

Claudia Carvalho Amaral
Psicóloga Clínica

Psicoterapia Individual e com Casal
Freguesia / Barra da Tijuca
21 99391-8093 

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