Ciúme e a fixação nas pistas
De diferentes modos o ciúme pode ser compreendido em várias culturas e épocas. Séculos atrás era tema dos apaixonados, do cuidado com o casamento para a preservação da relação, e não tinha um significado negativo de possessividade e desconfiança. Nas culturas monogâmicas o ciúme é uma questão de honra e moral, de proteção da família e até uma questão da incerteza da paternidade. Ao longo dos séculos a fidelidade feminina sempre foi mais cobrada, enquanto a masculina era negociada e a infidelidade deles considerada até uma prerrogativa cultural. Há ainda a compreensão do ciúme como sendo um sinal de amor e cuidado, tendo quem se queixe da ausência da manifestação desta atitude e provoque jogos para obter tal prova de amor.
Comumente algumas justificativa podem aparecer com frequência nesta situação de ciúme. Muitos defendem que se trata de uma reação frente a uma ameaça percebida, que existe um rival real e visa eliminar os riscos de perder o relacionamento.
Em algumas experiências o ciúme se agrava, pode se montar um cenário muito difícil ao relacionamento. Há relatos que expressam a ideia fixa e persistente de que está acontecendo algo e que a outra pessoa está de algum modo sendo infiel; existe sempre alguém interessado no parceiro ou esse está olhando e se interessando por outra pessoa na maior parte das vezes. O alvo do ciúme sofre os interrogatórios e acusações infundadas de infidelidade. As lacunas de comunicação nesse cenário são somente preenchidas pela certeza de uma traição: com a ideia fixa de que há eminentemente um desejo por alguém. Quando em ambientes sociais, a presença de uma determinada pessoa (conhecida ou mesmo desconhecida) pode trazer desconfiança, ou seja, basta ter pessoas interessantes para que haja a traição (todos são rivais em potencial).
O medo do abandono e uma desvalia sobre si mesmo são disposições que compõem o modo de compreensão daquele que sente
assim o ciúme, e como enfrenta a tensão natural de suas incertezas. De modo invasivo e repetitivo, o pensamento une pequenos sinais e
evidências superficiais montando uma história de infidelidade. A crença no próprio modo de analisar a
situação e concluir os fatos é prevalente e se funda também no modo
de pensar e em sua história pessoal. Ou seja, a linguagem com que lê e interpreta o mundo acontece como única e geral, a sua verdade construída em
evidências (aleatórias e de compreensão parcial) é o que existe! Sem chances para outro ponto de vista e refletir diante dos fatos concretos. A agressividade manifestada por acusações e insultos seguida pelo arrependimento e pela depressão é um quadro recorrente nesta situação. Mesmo assim, há
uma resistência em abrir mão de suas ideias e compreensão sobre o que vê como sinais de infidelidade.
Temos assim, a configuração de uma situação que tanto aprisiona aquele que sente quanto ao que é o alvo do ciúme. Estas ideias fixas sobre traição provocam profundo sofrimento nas relações, perturbando de modo intenso e extremado a qualidade de vida. E, como uma epidemia,
pode contaminar várias dimensões da vida. O relacionamento é o primeiro, mas podem sofrer os filhos, os familiares, pode ter reflexos no trabalho, no lazer, na vida financeira, na saúde física, no sono...
Para a psiquiatria o ciúme patológico é observado
em diversos transtornos mentais, com a presença de sintomas que revelam
fragilidade, falta de controle, várias emoções e pensamentos irracionais e perturbadores,
além de comportamentos inaceitáveis ou bizarros. Enquanto o ciúme comum é passageiro e baseado em fatos reais, o ciúme patológico se manifesta como uma
preocupação sem fundamento, sem fatos concretos e coerência com o contexto de
seu relacionamento. A presença de rituais de verificação, intensidade dos
pensamentos sobre traição e a capacidade de confrontação da pessoa com a
realidade concreta é um divisor de águas para a indicação ao tratamento
psiquiátrico.
O acompanhamento psicológico irá analisar o que acontece na experiência de quem está passando por esta intensidade de ciúme que sobrecarrega as vivências cotidianas. Diante deste tema, a psicoterapia tem como objetivo oferecer
espaço para a expressão dessa história de aprisionamento e assim pensar sobre este sofrimento com o ciúme constante. Promove, junto aquele que busca esta oportunidade de tratamento, uma articulação que pode ampliar as possibilidades de compreensão no sentido do encontro com a sua liberdade e com os seus limites.
Claudia Carvalho Amaral
Psicóloga Clínica
21 99391-8093


